18 de setembro de 2014

Vinho sem frescura


O mundo dos vinhos é repleto de nomes emblemáticos, mas nenhum deles tem o prestígio do Romanée-Conti, que batiza a vinícola homônima e a 'appellation d'origine contrôlée' (AOC) mais reverenciada do mundo. Apenas para se ter uma ideia, em 2012, uma única garrafa da lendária safra de 1945 foi arrematada, em um leilão da Christie's, em Genebra, por US$ 123.919 - o equivalente a quase R$ 282,5 mil. Mais do que o interesse pelo seu conteúdo, que muito provavelmente não se encontra em condições potáveis, quem pagou esta verdadeira fortuna sabe que, agora, tem em mãos um objeto exclusivíssimo - afinal, foram produzidas apenas 600 garrafas desta safra.

A tradição dos 1,63 hectares – 16.300 metros quadrados ou pouco mais de um quarteirão e meio – da propriedade atual remonta ao século 16, quando monges da Abadia de Saint-Vivant receberam cinco quintas, em Vosne-Romanée e Flagey-Echézeaux. Uma delas foi vendida, em 1584, como ‘Les Clos de Cloux’, e só na metade do século 17, após a descoberta de ruínas romanas no local, foi rebatizada. Em 1760, ela se tornou posse do príncipe de Conti e, 24 anos depois, foi citada pela primeira vez em um leilão, como Romanée-Conti.

O produtor francês representa, como nenhum outro, o cuidado com todos os processos de produção de um vinho. Do plantio e cultivo das vinhas, da colheita seletiva e da produção esmeradíssima à distribuição, igualmente selecionada. Seu grande mérito é ter criado este conceito há mais de um século e, de lá para cá, seguir fiel à qualidade. Seu rendimento volumétrico, por exemplo, é quase a metade do estipulado pela AOC e trata-se do único domínio da Borgonha que só produz 'grands crus'.

O Romanée-Conti também se beneficia da natureza única de seu solo, que tem apenas 60 cm de profundidade. Abaixo dele, só há pedra calcária e argila. Isso significa uma capacidade única de drenagem e retenção da água. No final do século 19, o príncipe de Conti trouxe 800 cargas de carroça de marga para seu terreno, ou seja, suas videiras são cultivadas em uma terra tratada a pão de ló há muitos e muitos anos.

Segundo o enólogo britânico Clive Coates, "o vinho mais caro do mundo é encorpado e elegante, feito de tafetá e seda". No Brasil, ninguém deve se iludir achando que vai encontrar o rótulo por menos de R$ 10 mil e uma safra mais conceituada – não que exista alguma que não mereça reverência – não sai por menos de R$ 25 mil. Mas será que vale a pena pagar tão caro por um Romanée-Conti?

Minha resposta é simples: claro que não!

Por um décimo do preço de um Romanée-Conti é possível experimentar um produto muito semelhante. O Vosne-Romanée, do domínio Méo-Camuzet, expressa basicamente o mesmo terroir do primo mais famoso e custa entre R$ 300 e R$ 400. É um produtor da mesmíssima cidade, que tem uma área de cultivo e uma produção ainda menores. Em outras palavras, é um vinho ideal para quem entende do riscado e quer exclusividade, sem se importar em fazer número ao lado dos novos ricos.

Nenhum comentário:

Postar um comentário