4 de julho de 2014

Vinho sem frescura


A invasão dos Liebfraumilch, no início dos anos 90, rendeu uma imagem tão negativa ao vinho alemão que, até hoje, muita gente torce o nariz só de ver uma garrafa renana na prateleira. Razões para isso não faltam, afinal, a viticultura germânica - que nasceu pelas mãos dos romanos nos vales dos rios Mosela e Reno - atingiu seu apogeu no século 12, quando os cirtercienses fundaram o Mosteiro de Eberbach e a região do Rheingau se tornou o principal centro vinícola de toda a Europa.

Apenas para se ter uma ideia, no século 16, os alemães tinham uma área cultivada com vinhas três vezes maior que a atual, e o consumo per capita anual era quase cinco vezes superior ao de hoje. A verdade é que, depois de ser devastada por pragas e duas Guerras Mundiais, a viticultura alemã retomou seu caminho, nos anos 60, fazendo o fino do que não presta.

A mecanização e a criação de castas de uvas de maior rendimento proporcionaram uma explosão da produção vinícola na Alemanha, que chegou a alcançar um volume de mais de 10 milhões de hectolitros. Mas, sem uma classificação semelhante à francesa, a coisa degringolou e, só no final da década de 90, esforços individuais devolveram ao país sua reputação de produtor de vinhos de qualidade.

Hoje, há uma divisão em quatro categorias: Tafelwein (vinho de mesa), Landwein (vinho regional), Qualitätswein Bestimmer Anbaugebeite (Q. b. A.), que corresponde às indicações geográficas italiana e francesa, e Qualiätsweim mit Prädikat (Q. m. P.), correspondente às distinções Reserva e Gran Reserva. Os vinhos que recebem a chancela Q. m. P. ainda trazem as seguintes classificações: Kabinett (seleção especial), Spätlese (referente à última colheita), Auslese (colheita selecionada), Beernauslese (colheita selecionada de videiras específicas) e Trockenbeeranauslese (colheita selecionada de uvas secas, para produção de vinhos doces).

A coisa não só parece como é confusa, e os produtores vivem em pé de guerra com os legisladores, porque nem eles entendem direito como essa metodologia deve ser aplicada. O importante, para não comprar gato por lebre, é saber ler o rótulo de um vinho alemão, e isso não é tão complicado: no alto, vem a marca do produtor; abaixo, o ano da safra, a uva (a Riesling responde por mais de 20% da produção), a classificação Q. m. P. (no caso, Spältlese), a origem (geográfica) e por aí vai.

O mais importante é evitar, a todo custo, vinhos que não tenham a classificação Q. m. P. Duas boas dicas são o Franz Künstler 2008 Riesling Kabinett Trocken Hochheimer Hölle (R$ 140), que harmoniza maravilhosamente com lagosta e ostras, e o Dr. Heger Vitus 2007 Spätburgunder (R$ 165), um varietal Pinot Noir que passa por 12 meses em barricas de carvalho francês - fresco e de muita personalidade. Não são opções tão em conta, mas vale a pena experimentar!

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