28 de maio de 2014

Vinho sem frescura


Quando eu tinha uns 13 ou 14 anos, ter uma guitarra elétrica era garantia de destaque entre os garotos do colégio e sucesso com a meninas. Hoje, os “mauricinhos” fazem todo tipo de chantagem emocional com os pais, para ganharem um carrão e conquistarem as gatas. Enquanto isso, os sujeitos mais maduros descobriram no vinho um assunto que, se não atrai a mulherada pela chatice, serve para fazer bonito diante da turma. Então, a moda agora é vestir Lacoste, andar de Hyundai i30 - “pelamordedeus!” - e ser enófilo. Se o sujeito estiver em uma fase de bem-aventurança financeira, é praticamente obrigatório gastar os tubos com um Château Margaux (R$ 1.910 a garrafa de uma safra mais em conta, como a de 1999) ou coisa ainda mais cara.

Na semana passada, fui abordado por um colega. Um advogado - sempre eles - que há até bem pouco tempo não sabia a diferença entre uma garrafa bordalesa e outra, renana. Hoje, ele bate no peito para contar que importa vinhos diretamente da Europa, que saem pela “bagatela” de 200 euros a garrafa - pelo que disse, calculo que ande gastando quase R$ 5 mil por caixa.

Sempre sorridente, me indagou sem rodeios: “Então você agora escreve sobre vinhos, é?!” Respondi que escrevia sim, pensando que estava se referindo ao fato de eu escrever sobre automóveis e aviação há quase 20 anos. “E o que você anda bebendo?”, perguntou. Antes de eu responder, ele sacou seu telefone celular e começou a me mostrar fotos das preciosidades que andava degustando - eu nunca tinha ouvido falar de nenhuma delas. Foi mostrando as imagens e falando os preços.


Então, eu disse a ele que aqueles valores estavam longe da minha realidade e que o objetivo desta coluna era, exatamente, mostrar para o leitor que existem excelentes opções por preços pouco acima da linha da pobreza. “Mas se você gosta, tem que comprar vinhos mais caros. Para experimentar”, justificou.

É peixinho no assunto e não sabe que preço e valor são conceitos diferentes. Vamos lá: segundo o enólogo Christian Moueix (produtor do Château Pétrus e um dos maiores négociants franceses), nenhum vinho tem custo de produção maior do que 30 euros - o equivalente a R$ 80 - a garrafa, por melhor que seja. Moueix garante que cada centavo cobrado a mais é, na verdade, fruto de impostos e especulação - note, caro leitor, que no cálculo já está incluída a margem do lucro do produtor. Infelizmente, o esnobismo é um traço da sociedade capitalista, o cartão de visitas de quem acaba de emergir.

Tipo assim: o cidadão nunca ouviu música na vida, mas compra o ingresso mais caro para a ópera e sai de lá com o afã de um verdadeiro maestro. Da mesma forma, compra um rótulo caríssimo e sai mostrando a foto dele para os outros, como quem diz: “olha como eu entendo de vinhos”, quando na verdade qualquer estudante de psicanálise sabe que ele está dizendo “olha como eu fiquei rico”. Os importadores é que devem gostar disso. Afinal, eles cobram um preço astronômico para saciar a vaidade desse povo e “enquanto existir cavalo, São Jorge não anda a pé”.

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