1 de maio de 2014

Vinho sem frescura


Não me canso de listar os maneirismos criados pelos enófilos, que funcionam como uma muralha, impedindo os reles mortais de fazerem parte do mundo do vinho. Não bastasse a inflação do produto, cujo custo de produção nunca ultrapassa os 50 euros (o equivalente a R$ 152), mas cujos preços chegam a US$ 15 mil a garrafa, existe um dicionário enológico que praticamente proíbe quem não fala a “língua de Baco” de dar palpite. Ou seja, se você não foi alfabetizado pela afetação, beba o que lhe for servido e se dê por satisfeito.

A denominação dos aromas do vinho, por exemplo, segue uma cartilha complicadíssima que tem mais de 150 tópicos – entre aromas, buquês e cheiros. Há quem se gabe de identificar perfumes de toranja, lichia, madressilva, tília, endro, feno, sílex, querosene – acredite se quiser – e sândalo, almíscar e até mesmo removedor de esmalte, quando degusta um rótulo.

Não é preciso ser o mais inteligente dos seres para desconfiar de tamanha capacidade olfativa e eu, na minha humildade, divido os aromas em cítricos, florais, minerais, de especiarias e madeira. Faço isso por uma razão muito simples: há muito trabalho me esperando e tenho no vinho um prazer e, não, uma chateação.

Sou, inclusive, muito feliz assim, já que não me sinto inferior a nenhum entendido, caso não consiga identificar “aquela nota de alcaçuz” ou “aquele toque de musgo” – prefiro ver a patroa amaciada e partir para o que, realmente, interessa. Uma dica simples, para o iniciante, é prestar atenção nos aromas mais pronunciados em determinadas castas de uva, uma observação que vale principalmente para os vinhos varietais.

Os Cabernet Sauvignon, por exemplo, têm perfume de groselha; os Malbec, de violeta e ameixa; os Merlot, de cereja; os Pinot Noir, de framboesa, e os Syrah, de amora. Entre os vinhos brancos varietais, os Chardonnay têm aroma de melão e abacaxi; os Sauvignon Blanc, de lima; os Riesling, de pêssego, e os Viognier, de noz-moscada.

Obviamente, isso é uma visão genérica, mas que vai dar uma ajuda para quem não quer correr riscos e meter as mãos pelos pés na hora da harmonização.

Por Homero Gottardello

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